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DA GÊNESIS AO APOCALIPSE

15/Mar/2017 a 27/ Mai/ 2017

Curadoria: Laurindo Pontes / Texto crítico: Raul Córdula

 

Antes de ser profissão a arte é devoção: o artista é um devoto do olhar, do gesto, da palavra, do som. Então, o que significa “artista profissional”? Seria aquele que vende muito? O que tem contratos com galerias ou outras instituições que comercializa sua obra? Seria aquele que se formou na Universidade? O que significa, afinal, a profissão “artista”? Nada, simplesmente o artista é.

O conceito de arte como devoção embora seja pouco discutida entre os artistas, é o fator ideológico presente em todo ato criativo: fazemos arte para o outro. Não como forma de comercializar um bem material, mas como expressão de nós mesmos. A materialidade da arte é magicamente expressa por Sri Prem Baba quando ele sugere que a matéria é uma aventura do espírito. A obra de arte seria a materialização do espírito livre numa forma cativa, portanto.

É claro que quando criticamos o “artista profissional” nos referimos à ideia capitalista de profissionalismo, onde toda pessoa precisa, para ser aceita socialmente ter que trabalhar para um sistema onde profissional significa competente, e competência é fazer as coisas segundo o modelo de quem o paga. Isto não corresponde à razão de ser do artista. Vivemos no capitalismo, mas podemos sonhar com outras maneiras de viver, e o artista já vem com esta ideia pronta. Mesmo com o sucesso de sua obra no mercado não significa que ele seja um “profissional” com todas as limitações que isto implica, pois o objeto simbólico que ele cria é que tem valor de mercado e é sua moeda de troca. É necessário, porém, averiguar um conceito que tange a arte com a ideia de profissão: o artesanato. O artesão pode e deve ser visto como um profissional. Arte e artesanato são coisas diversas: a arte é o ato de criar e o artesanato o ato de fazer. Mas convivem juntas, desde que não se obrigue o artesão à condição proletária do trabalho atrelado a um sistema industrial. Artista e artesão são donos de seu tempo e seu trabalho. Quando o artista aceita seu compromisso com o artesanato ele projeta uma ponte entre sua obra e a realidade social que o fazer abarca.

A razão dessas considerações é levar ao público algumas ideias em torno do trabalho de Tiago Amorim, um dos artistas mais singulares que conheço. Tiago é um exemplo eloquente dessa dualidade com sua maneira de ver a arte e viver dela.

Há três décadas escrevi uma apresentação de sua arte com o título “Uma ideologia do fazer”, que inicia assim: A versatilidade é o traço dominante do de seu talento. Sua obra se desenvolve através das mais diversas técnicas tradicionais conhecidas como o desenho, a pintura, a gravura, o entalhe em madeira, a cerâmica, a serigrafia, a estamparia ou qualquer outro meio que provoque sua vontade de criar ou desafie sua mente inquieta. Uma ideologia do fazer define sua obra. Consciente do verdadeiro papel do artesanato na confecção da arte ele se expressa na linguagem própria de cada categoria de arte que aborda, sem perder, no entanto o fio da meada que transmite sua inconfundível maneira de ser.

A questão ideológica em sua obra nos é revelada em seu depoimento para o meu livro “Utopia do Olhar”:
Tenho um ateliê de cerâmica aonde os meninos que hoje vêm aprender comigo e com o pessoal que lá trabalha, dentro de um clima socialista, sabem o que é cobalto, o que é manganês, o que é quartzo, e se tornam fortes profissionais. A arte não tinha assinatura na Idade Média. A arte é evolução, ação, expressão e sabedoria. Você nunca vai deixar de ter ação, expressão e sabedoria. Agora, o que eu acho importante para a arte e o que prego em meu pensamento é o seguinte: você tem que encontrar a sua identidade, isso é o básico. Picasso é Picasso, Van Gogh é Van Gogh. A identidade é o básico.

Tiago estudou com os Beneditinos e quase se tornou monge, se é que ele não o seja desde sempre, pois o lema Ora et labora se confunde com sua faina diária de trabalhar e transmitir seu ofício aos outros como uma forma de transcendência. Através da pintura, das artes gráficas, da escultura, em madeira (entalhe) e em cerâmica, ele dá forma a seu imaginário, e com isto apresenta ao outros sua realidade oculta. No seu quadro Da Gênese ao Apocalipse, Tiago aborda a noção de tempo e espaço. A figuração pintada nos leva a ideia da evolução civilizatória que vivemos e a vemos desaguar no caos.
Trata-se da expressão sintética da história, e nisso ele traduz a ideia de que vivemos no tempo e o espaço é o seu suporte. Voltamos aí ao diálogo entre espírito e matéria: tempo/espírito, espaço/matéria.

Quando seu ateliê estava no Alto da Sé de Olinda, Tiago atuou em várias áreas de criação com ênfase na música. O ateliê foi um espaço de acolhimento e ressonância da música nordestina onde se reuniam Gilberto Gil, Caetano Veloso, Alceu Valença, Fagner, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho Lula Cortes, Robertinho do Recife, Naná Vasconcelos, Tito Lívio e tantos outros artistas que colocaram aquele período em que nossa música se colocou na vanguarda brasileira. Em 1974 ele produziu, criou a cenografia e dirigiu espetáculo 7 Cantos do Norte, que aconteceu aqui na Igreja Carmo. O ateliê também foi o espaço de iniciação de novos artistas e artesãos do entalhe em madeira (talha) e da cerâmica, mas foi em Tracunhaém que se envolveu definitivamente com a cerâmica, deixando também naquela cidade, berço da melhor cerâmica figurativa religiosa, meios e modos cooperativos de trabalhos.

Esta exposição não é um resgate nem uma retrospectiva, é um instantâneo de sua arte de sempre, sua identidade de criador de mundos e objetos simbólicos que caracterizam em muitos aspectos a fisionomia desta cidade de Olinda recheada de imagens e de sonhos.

 

Raul Córdula