23/Ago/2017 a 20/Out/2017

Maria do Carmo Nino

Da nossa essência de vidro

OBRAS DO ARTISTA

Nossa essência de sombras

“Corpo tocado, tocante, frágil, vulnerável, sempre mudando, fugindo,
inapreensível, evanescente sob a carícia ou sob o golpe, corpo sem casca,
pobre pele tensionada sobre uma caverna onde flutua nossa sombra...”

Jean-Luc Nancy, 58 indícios sobre o corpo
Em Corinto, a filha do oleiro, apaixonada por um jovem que partiria em viagem, desenha na parede a sombra de sua face projetada por uma lamparina. Seu pai, aplicando-lhe argila, confeccionaria um molde que levaria ao fogo junto com os outros vasos de barro. No mito de Dibutades [ou Butades], narrado por Plínio o Velho em sua sua História Natural, a arte tem, no contorno da sombra e na impressão por contato, sua invenção. A arte nasceria então como conjuração de uma ausência, a do ser amado, ao fixar o traço de sua presença ausente, de sua ausência presente? Trama de desejo e medo, sensualidade e artifício, é indissociável da morte e do desaparecimento. A jovem apaixonada é atravessada pela sombra cujo reino, desde os gregos, é o mundo dos mortos.
“Nossa essência de vidro” – expressão de um personagem shakespeariano que Maria do Carmo Nino emprestou para dar nome à exposição – é uma pele sensível e assombrada por temores e fragilidades.

Plínio reivindicaria ainda a imago, a noção romana de imagem, a partir dos retratos obtidos com as máscaras mortuárias, como reflete Georges Didi-Huberman. Imaginum Pictura era a efígie obtida com as máscaras mortuárias expostas nas casas dos nobres romanos como genealogia familiar e transmissão, às gerações futuras, do passado honroso de seus membros. Técnica de contato direto por impressão, obtinha-se um molde negativo de gesso no rosto do morto, e suas retiradas positivas em cera. Imagem - matriz de extrema semelhança (o rosto do morto) destinada a tornar legítima a posição da pessoa na instituição da gens romana, sua dignidade pública. O início da história da arte implicaria uma morte na origem. Plínio, segundo Didi-Huberman, introduziu seu ponto de vista genealógico “mediante o testemunho da morte” 1 (ou como diria Régis Debray, a imagem traz desde tais máscaras, um “terror domesticado”)

Dibutades intitula uma das séries de Maria do Carmo Nino. Como outra série em exposição (Pequenas narrativas), a artista fotografa as sequências dos movimentos de performances ou balés, edita as imagens em camadas transparentes e sobrepostas. O que vemos é a imagem impressa do arquivo-síntese, como desenhos de sombras que vibram e dobram, rastros de gestos perdidos, rastros de rastros perdidos.

Não há sombra sem um corpo. Um signo indicial, segundo Charles Peirce, que exige uma contiguidade física, um toque. Como a sombra, a fotografia (analógica) seria considerada também um índice. A “grafia da luz” deixa um rastro, um vestígio, um corpo tanto matérico como espectral (a exemplo do negativo, da “película” segundo a terminologia do meio). Não há fotografia sem a luz que irradia dos corpos iluminados na captação da imagem. Mas se no processo analógico, a impressão dessas emanações luminosas é fixada na película fotossensível; na fotografia digital ela é um código binário. Em strictu sensu, não é mais uma grafia de luz, uma fotografia, mas um simulacro.

Dibutades e Pequenas Narrativas de Nino são também o desenho e a sombra dessa perda, dessa passagem da imagem-índice para a imagem numérica da tecnologia digital, são a conjuração dessa passagem, dessa metamorfose. Por isso Casulos: série de fotografias editadas (como em Dibutades) de performers vestindo uma malha que adere a seus corpos, como se fosse necessária uma segunda pele para se inscrever na epiderme do mundo, para enfrentar suas fricções, suas falhas e dobras, suas contenções e extravasamentos, suas transformações.
É essa sabedoria sensível das “carícias e dos golpes” que a artista nos traz aqui. Umaciência do toque entre corpos, entre peles, entre películas. Uma ciência das proximidades dos corpos nas distâncias do olhar. Apenas corpos separados podem tocar, a separação inaugura o contato. A pele é o entre, a zona sensitiva das transferências, é o roçar e o transbordar dos mundos: o dentro e o fora, o raso e o profundo, o transparente e o opaco, o visível e o invisível, o olho e o tato.

As demais séries – como as pinturas em papel japonês ou em canson preto, ou os Dispersos (pinturas sobre vidro em molduras de diapositivos de 120mm e 35mm) – explicitam essa transferência de peles, essa “semelhança por contato”, como chamou Didi-Huberman as impressões: produzidas pela pressão de um corpo sobre outro, como uma superfície atingida por um gesto de contato cujo resultado mecânico é uma marca, um sinal.

A ínfima película são peles esfoladas, transferidas, presenteadas ao outro ao qual se adere. Ínfimo sem espessura que guarda, todavia, nossas sombras, nossas vertigens e desmedidas.

Marisa Flórido
Agosto de 2017