14/Jun/2017 a 05/Ago/2017

Sebastião Pedrosa

Geometria e Trama

OBRAS DO ARTISTA

Aparentemente o mundo é caótico: nuvens sobre cidades, mares e montanhas, águas se moldando a qualquer relevo, árvores movimentando-se ao vento, edifícios rígidos em oposição à mobilidade dos carros e das pessoas. Caos aparente. Mas noutro registro é a construção que existe no âmago das coisas. Por causa disso a expressão da pintura ligada realista, da pincelada, da sensação de velocidade é mais propensa ao caos, enquanto que a geométrica, por sua aparente imobilidade, é contemplativa por natureza. Daí a construção dos iantras, objetos de contemplação dos Iantra-Iogues, ser a expressão geométrica da natureza.
É no íntimo das coisas que estão as estruturas da arte geométrica, porém não na forma, não no aspecto estético propriamente dito.

A geometria, numa visão sintética, fala uma língua escrita apenas com três signos: o triângulo, o quadrado e o círculo, e todas as suas possibilidades e variações desde a pirâmide, o cubo a esfera, até a espiral que tanto espelha o búzio como a galáxia. Podemos até sugerir reduções deste vocabulário como a reta e a curva, a linha e o plano, mas são visões binárias, mínimas, para expressar o que as figuras geométricas potencialmente querem dizer. Figuras sim, figuras geométricas, pois o termo figura não é limitado ao aspecto do corpo humano, mas à forma exterior de qualquer objeto, o efeito ou a impressão que nos produzem as coisas.

Quanto mais nos aproximamos das coisas mais veremos sua trama construtiva, a existência reticular dos tijolinhos que a construíram, a trama que, como num tecido, arma qualquer objeto independente de sua natureza, como um tecido onde um fio atravessa a urdidura e, repetidamente, se constrói. No milagre imaterial da música também se percebe (ouve) a estrutura do som, a tessitura dos acordes. A tessitura, embora sendo um termo musical, nos leva a maneira de tecer, à textura e ao texto. O texto, por sua vez, é a forma organizada assumida pela literatura para sua leitura. Não se pode dispensar a ideia de que o triângulo, o quadrado e o círculo sejam um conjunto simbólico formador de textos como os caracteres de um alfabeto.

Eis que, em qualquer circunstância, a arte como geométrica é para ser lida, não apenas para ser vista. Exemplos disso foram a poesia concreta, o concretismo e o neoconcretismo, movimentos artísticos brasileiros, passagem para a arte de vanguarda, que vigoraram na metade do século passado, tendo origem no suprematismo do russo Kazimir Malevitch, no construtivismo dos holandeses Theo Van Doesburg e Piet Mondrian, por exemplo.

Vale citar a arte dos povos autóctones das Américas que foi e é geométrica, desde as expressões linguísticas dos incas, maias e astecas, até a pintura corporal e ornamental dos indígenas, especialmente os brasileiros.

A questão da arte geométrica, portanto, como tive a oportunidade de escrever em texto para Braz Marinho, “não se reduz à forma, mas no conteúdo – o conteúdo da forma – que se revela na impressão de tensões produzida no olhar. Arte geométrica não é a arte da forma, não significa produção de formas em composições decorativas, mas a criação de poéticas construídas a partir do ritmo, da cor e do material expressivo, onde a forma geométrica pode ser a constante.”

Achei necessário escrever esta introdução como um conjunto de elementos facilitadores da “leitura” da arte de Sebastião Pedrosa que a Arte Plural Galeria apresenta ao público do Recife. O pintor de figuras e paisagens não precisa disso, sua obra existe como representação da natureza ou da realidade objetiva, mas na obra de um artista não-figurativo (prefiro este termo a abstracionista) existe uma leitura poética que transcende a leitura realista, por mais poética que possa conter a obra de qualquer pintor representativo. A transcendência se deve em parte aos códigos pessoais do artista de certa forma difíceis de ser captados pelo olhar complacente da média dos apreciadores da arte.

Para falar sobre sua obra citamos a noção de trama, retícula, tessitura e textura como forma de assinalar partes de suas composições. Com isto queremos guiar o olhar do espectador para uma perspectiva de análise, rudimentar embora, da obra onde não se reconhece elementos da estética tradicional. O que ocorre com artistas dessa natureza é a tentativa de colocar no meio do mundo algo que não compartilha com a visão geral do mundo objetivo. Não que estas coisas sejam inéditas, mas são estranhas à maior parte das pessoas. Se observarmos o micromundo dos tecidos urdidos, dos pelos, da pele, se nos aproximarmos mais até ver as células das coisas vivas, por ventura nos colocaremos num lugar de formas estranhas, e passamos a entender melhor a repetição de pinceladas sobre um plano de cor comum, mas não completamente, na arte de Sebastião Pedrosa.

As retículas, ou tramas de traços de cor, cobrem a superfície de grande parte das suas pinturas sobre telas retangulares, como circulares, e sobre objetos sólidos geométricos geralmente de forma piramidal. Mas estas séries de pinturas não esgotam seu repertório, existem as pequenas caixas de surpresas onde a rusticidade do material que suporta objetos de memória nos leva a pensar em pequenos oratórios, oratórios de viagem que os antigos tropeiros carregavam para orar. Estas caixinhas, onde somente a construção se resolve como geometria, carregam objetos encontrados ou esquecidos que ele compõe judiciosamente. Em outra sequência as caixas crescem e se enchem de matérias que nos levam à paisagem. São gravetos pintados com listas pretas como zebras vegetais, pequenas árvores sem folhas preservadas em caixas brancas que suportam memórias de mangues e igapós existentes em seus sonhos.

Conheço este grande artista e doutor em artes visuais, aposentado do Departamento de Arte da UFPE e quando participávamos Conselho do Núcleo de Arte Contemporânea da UFPB, e nossa convivência é um contínuo diálogo sobre a arte que mais nos interessa – a arte geométrica.